As Dez Pragas do Egito

Por volta de 1250 a.C. estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados, o Senhor decretou libertá-los. Em vista disto, enviou Moisés, constituído chefe do povo, à presença de Faraó, soberano do país, a fim de intimar o monarca, em nome de Deus, a libertar os israelitas. Faraó, porém, não se quis render ao pedido; por isto, o Senhor houve por bem demonstrar-lhe o seu poder, desencadeando dez pragas sobre o Egito, das quais somente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei. Eis a lista dos flagelos assim ocasionados:

1ª     Conversão das águas do rio Nilo em sangue envenenado: Ex 7,17-25.

2ª     Invasão de râs nos rios e nas casas do Egito: 7,26 – 8,11.

3ª     Onda de mosquitos: Ex 8,12-15.

4ª     Sanha de moscas venenosas ou de vespas: Ex 8,16-28.

5ª     Peste sobre o gado: Ex 9,1-7.

6ª     Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: Ex 9,8-12.

7ª     Geada:  Ex 9,13-35.

8ª     Invasão de gafanhotos:  Ex 10,1-20.

9ª     Trevas sobre o país: Ex 10,21-27.

10ª   A morte dos primogênitos dos egípcios: Ex 12,29ss.

O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas, atribuindo-os à intervenção explícita do Senhor. A imaginação humana, porém, no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos, além dos termos intencionados pelo próprio Deus. Eis como, após uma análise conscienciosa do texto bíblico, se há de reconstituir a história.

Em primeiro lugar, note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente. Com efeito, o versículo 1 do capítulo 3 do livro do Êxodo, falando do pastoreio de ovelhas na estepe, e o versículo 12 do capítulo 5, aludindo à confecção de palha, referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. Ora pouco depois (6,1) começaram a se desencadear os flagelos, sendo que o primeiro, como se verá abaixo, condiz bem com a situação do país em junho; de outro lado, certo é que a morte dos primogênitos coincidiu coma primeira Páscoa, ou seja, com o início da primavera (mês de abril).

Uma vez determinada a cronologia, julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que, dentro do período assinalado, se produzem naquele país por ação de fatores naturais, dado o concurso de circunstâncias particulares. Foram, pois, milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco, mas em vista do modo como se verificaram; tiveram origem, sim, por ordem de Moisés, no momento predito por êste, e cessaram a mandado do mesmo; desenvolveram-se com veemência fora do comum, poupando, porém, em mais de um caso, a região de Gessen, onde estavam domiciliados os israelitas (cf. 8,18; 9,6s.26).

E qual o fundamento desta tese?

É a observação de certos fenômenos, naturais no Egito, os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. Ora, como se tem dito freqüentemente, Deus, sem graves razões, não derroga às leis da natureza; procura antes, servir-se do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios… A título de confirmação, observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir, ao menos em setor restrito, um ou outro dos flagelos provocados por Moisés, como o primeiro e o segundo (cf. Ex 7,22; 8,3). Por ocasião da terceira praga, confessaram sua incapacidade (cf. 8,14s). Da sexta praga em diante foram eles mesmos atingidos. Disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas; estas, portanto, não lhe pareciam – e realmente não terão sido – fenômenos até então inauditos.

Posta a conclusão acima, resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades.

O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo, anualmente verificada em fins do mês de junho. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissinia; é este o fenômeno dito “do Nilo vermelho”, o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue. Normalmente, porém, as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado. É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno, como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio, os quais tornaram venenoso o manacial.

P. Heinisch, professor da Universidade de Nimwegen (Holanda), aponta fatos históricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico:

em setembro de 1913, verificou-se numa baía perto de Kiel (Alemanha) a irrupção de numerosíssimas pulgas de água (daphniae, crustáceos cladoceros); estas, juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas, consumiram todo o oxigênio da água, ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação. A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas, o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gotinhas de óleo vermelho no seu organismo;

está averiguado que também certos “flagelados” rubros (englena sanguínea), caso se tornem numerosos, dão colorido sanguíneo à água;

o chamado “Lago Vermelho” perto de Lucerna (Suiça) deve o seu matiz característico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens).

Estes fatos dão a ver que, por via natural, e em circunstâncias diversas, as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha, parecendo transformadas em sangue.

A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível.

As invasões de rãs, mosquitos e vespas (segunda, terceira e quarta pragas) são conseqüência das enchentes do Nilo. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sobre as águas, onde os mesmos se desenvolvem. Quando, pois, se verificam inundações, multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais, que, em conseqüência, penetram nas habitações dos homens e os molestam. As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de moscas venenosas.

Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias, como as que se deram na quinta e na sexta praga.

A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro, quando ela se verifica no Egito.

Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fevereiro ou março, mormente em países orientais, onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüência (cf. Jl 1,4; Am 4,9).

Quanto às trevas, que constituem a nona praga, terão sido acarretadas pelo famoso vento quento dito khamsin ou simun. Este sopra a partir do deserto, carregando consigo enormes quantidades de areia, suficientemente espessas para provocar escurecimento da atmosfera. Sua ação se faz sentir em março ou abril, por vezes ainda em maio, e no decurso de dois, três, até seis dias contínuos, durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. Conforme Heródoto (3,26), parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias desse vendaval.

No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos), nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar. Foi decisiva para que Faraó se rendesse.

Fonte: Para Entender o Antigo Testamento,

Dom Estêvão Bettencourt, OSB, Editora Agir, 1965, 3ª Edição.

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